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CFO - Antes da exibição
no Multiplex Iguatemi você afirmou ter feito o filme
com uma proposta de "desmorrização"
da maconha, numa tentativa de discutir sobre o tema de fora
do morro, mas o que mais permanece ao acabar o filme é
que o ciclo da maconha continua, num círculo vicioso
onde a pergunta final se une ao título, como num
'loop', sempre voltando ao início. Gostaria que você
falasse mais sobre o ponto central do filme.
PLM - O ponto central do filme é
mostrar os envolvidos e os envolvimentos das pessoas com
a droga. O traficante, os jovens, o morro. Dividir por partes,
núcleos, como essa coisa se organiza e se mantém
em uma sociedade que não reage, não tem opinião
e empurra o assunto com a barriga através de uma
repressão estranha, onde a maioria dos envolvidos
são os próprios repressores. O nosso pais
é refém de traficantes poderosos, organizações
bem sucedidas que estão em todos os cargos, que estão
por toda parte. É cada vez mais normal a presença
da droga na sociedade. Em toda roda de amigos existem usuários,
ela esta em toda parte e alguém está ganhando
muito com isso. Qual é o problema da Legalização?
É pagar imposto? É ter menos lucro? O mundo
da propina vai perder? Qual é o individuo que não
sabe que ali na esquina vende? Ali mesmo, perto do posto
policial! Não falo só da maconha, a maconha
é a menos impactante, por isso foi escolhida. Mas
eu estou falando da droga ilícita, de seu mundo e
mostrando parte dele.
A parte onde se encontra o usuário, dentro de um
trafico de região, onde a droga vai penetrando por
partes e é distribuída. Que é a mesma
forma, em proporções maiores de corrupção
e coação, "degrais" acima. Eu falo
de quem fuma e de quem faz a pequena distribuição,
geralmente, quem sofre alguma conseqüência. O
fantasma nunca aparece, só em época propicia,
e a gente nunca vê o rosto nem ouve falar. Salvo Beira
Mar e o cara do PCC, que o Pais não consegue segurar.
É muito vergonhoso, um cara desse "dá
testa" com as Policias do País, manda matar
um monte de gente e ninguém segura, se fosse um Tião
(o traficante do morro no filme), ou um Neto (traficante
que traz para o morro no filme) já tava morto e enterrado,
não que eu seja a favor disso.
Qual é o poder de um cara desses? O que sustenta
tanta autoridade?
Quis falar um pouco também do usuário, tirar
carapaças e estereótipos. O que as mídias
passam é que não existe Bom-conheiro só
Má-conheiro, o cara sempre é mau-caráter,
nunca alguém respeitável ou confiável.
No filme eu mostro alguém como outro qualquer. Acho
que o caminho para uma conscientização é
falar a verdade e encarar fatos, jogar as cartas na mesa.
Mas esse não é o interesse. Quando em uma
novela da Globo existir um usuário gente boa, vai
ser fácil a sociedade aceitar. Acho que a única
forma de desarticular toda essa rede, essa teia, essa violência
é legalizando, não tem mais jeito. Acho que
o nosso País está pronto para a legalização
da Maconha, não causaria danos. Já as outras
drogas, o País precisa de um preparo, de um trabalho
sério e honesto. De tudo que a gente já está
careca de saber.
Sobre o loop que você se refere, eu não o vejo.
O que vejo é uma história que continua, nada
volta ao início, não tem início e não
tem fim.
CFO - Seu filme é composto por
mais de 20 personagens e possui tramas entrelaçadas,
um mosaico de experiências onde a maconha é
o tema central. Uma das coisas que mais me chamou atenção
foi a interpretação no conjunto, que mesmo
tendo uma quantidade grande de atores não perdeu
a verossimilhança, fale um pouco do trabalho com
os atores e de toda a produção, principalmente
a finalização em 35mm.
PLM - Meu trabalho com os atores começou
seis meses antes do prêmio, eu e minha mulher fizemos
alguns testes com atores em minha casa e reuniões
na Escola de Teatro da UFBA, uma coisa bem precária
onde eu não contava com nenhum apoio financeiro e
não prometia nada a ninguém. Eu estava querendo
fazer a energia girar, tomar corpo. Neste período
passaram mais de 50 pessoas por minha casa, das quais permaneceram
no elenco final Iara Castro, AC Costa e Franclin Rocha.
Quando o premio chegou, uma estrutura pode ser formada e
veio o apoio da Companhia de Patifaria que nos cedeu uma
sala para os testes. Chamei para trabalhar comigo Fernanda
Paquelet, que se interessou e começou a divulgar
que havia um teste para um curta, fomos realizado testes,
foram mais de 200 pessoas. Os testes giravam em torno do
improviso, dentro do contexto do filme, onde se buscava
atores que conseguissem se livrar do exagero teatral, pessoas
que se permitiam trabalhar e claro, que se parecessem com
as personagem.
Isso durou um mês. Depois com a equipe formada dediquei
dois meses para ensaios em grupo e individuais. Onde fomos
descascando aos poucos até chegar ao ponto. Foi um
trabalho muito gostoso. Era muito bom escavar o ator até
ele encontrar e encarnar a personagem.
Enquanto isso, estávamos procurando as locações
pela cidade, tentando encontrar apoios para alimentação,
equipamentos, transporte e segurança. E em casa eu
desenhava todas as angulações de câmera,
enquadramentos e movimentações na planta baixa
das locações, planejando e fazendo os ajustes
finais, vendo figurinos, objetos de cena, estas coisas.
Tudo pronto, uma semana de descanso a todos, uma festa para
toda a equipe se conhecer, com o apoio do "Ao Léo
bar" que bancou tudo para 53 pessoas. Todo mundo feliz
e ansioso partimos para 12 dias de filmagens.
No processo de finalização estávamos
com pouca grana e recebemos apoios da DOCDOMA e do CTAV,
no tratamento da imagem conseguimos descontos na LABOCINE
e quem cuidou do transfer foi Daniel Leite, um cara do RJ
com quem espero nunca mais trabalhar. Apesar de ninguém
notar durante a projeção, a película
esta com um defeito grave no lado esquerdo existe uma interferência
magnética, quando descobrimos isso ligamos para ele
e o cara se negou a refazer o negativo para a estréia,
afirmando que tinha muito trabalho a fazer, sorte que no
Multiplex ficou quase imperceptível, mas numa projeção
de menor qualidade a coisa fica gritante. Outra merda que
o cara fez foi apagar o arquivo digital do filme, ele apagou
o arquivo tratado, eu não tenho o filme digital em
alta resolução, com tratamento de som e imagem
graças a essa proeza dele. Agora estamos brigando
para que ele assuma e refaça tudo.
Bem... como eu estava dizendo, estávamos com o orçamento
baixo o que impossibilitou a minha ida no RJ durante para
a finalização da imagem. Então tive
que conversar com Pedro Semanovski aqui para ele realizar
lá sem a minha presença, o que não
foi difícil, pois desde o começo Pedrinho
foi um cara totalmente ligado ao processo, sabia exatamente
onde eu queria chegar e realizou tudo muito bem. Eu estava
mais preocupado com o tratamento e ajustes do som e escolhi
ir pro RJ nessa etapa. O processo foi realizado no CTAV
junto com Kiko da DOCDOMA, com o auxilio de Araripe que
cedeu sua residência, onde ficamos hospedados durante
todo o tempo.
Uma coisa que eu queria chamar a atenção é
que praticamente toda a equipe envolvida no filme foi investidora,
pois o cachê em geral foi apenas simbólico.
CFO - A gravação foi em
digital e a camera na mão está presente em
todo o filme, assim como planos curtos, rápidos e
de angulações variadas, o que me pareceu mais
como uma busca do que uma proposta de linguagem. Gostaria
que falasse sobre a forma do filme e as referências
cinematográficas da obra.
PLM - Bem... como eu falei na resposta
anterior a linguagem estava toda estudada em desenhos e
observações. O roteiro pedia uma dinâmica
muito forte por ter muitos detalhes e muitos personagens,
cenas com muitas ações a serem mostradas ao
mesmo tempo, de perto, buscando um realismo. Eram 23 personagens
e 18 locações para 20 minutos de filme com
créditos, ou seja, menos de um minuto para cada personagem.
Em alguns momentos no filme o off não se relaciona
com a imagem são coisas separadas, acho que apenas
isso é uma novidade que experimentei, acho que temos
a capacidade de assimilar duas coisas, que não se
ligam diretamente, mas que estão dentro do mesmo
conteúdo, ao mesmo tempo, isso funcionou mais-ou-menos,
sempre que alguém tem uma duvida quanto ao desfecho
ela está dentro dessa parte. Eu tinha que aproveitar
ao máximo o tempo, o filme está o tempo todo
dentro da historia sem contemplações tudo
está "na lata", de forma direta. A linguagem
se construiu harmoniosamente e anteriormente à filmagem.
Durante a criação quis me libertar de tudo,
quis ficar o mais livre possível para perceber a
melhor forma de contar a historia sem me preocupar se seria
uma proposta nova ou não, seguindo apenas as necessidades.
Queria realizar da melhor forma possível dentro de
uma realidade financeira. E o que percebi é que era
chão, corpo-a-corpo, câmera na mão -
Se dinheiro não fosse problema eu arriscaria mais.
A câmera seria uma coisa flutuante - Claro que referências
sempre existem, mesmo que escondidas no subconsciente.
CFO - Como você está vendo
o mercado audiovisual com relação a exibição
de curtas e quais suas propostas para exibição
de "E aí, irmão"? Quais seus projetos
futuros e expectativas?
PLM - Meu acesso a curtas é via
internet, festivais, mostras e salas de arte. Acho ruim
realizar um filme e não ter espaço para expor,
mesmo filmes premiados têm dificuldades para uma projeção
em cinemas. Onde realmente o curta ganha publico é
na internet.
Por enquanto não estou pensando em exibições
de "E aí, irmão?", nesse momento
quero tentar participar de todos os festivais possíveis
para ele. Quando acabar este circuito veremos o que acontece.
Idéias... projetos existem muitos, uns estão
nas gavetas, outros por ai em editais.
Um projeto de documentário foi aprovado agora pelo
Minc e pela Funarte. Até o final do ano estaremos
com a mão na massa em um media-metragem. Não
quero entrar em detalhes agora, deixa a coisa rolar por
inteiro.
A expectativa é que essa maquina a vapor não
pare, que ganhe cada vez mais embalo, derrame seu tapete
de trilhos por ai e vá se transformando em uma fortaleza
indomada. Que o artista ganhe, realmente, sua liberdade
justa, para falar, gritar, expor suas idéias, suas
criticas, suas inquietações, transbordar seus
sonhos, suas paixões. E que esse trem um dia voe.
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