Catálogo de Meninas  

 

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Por Ângela Peroba (A Tarde - Caderno Cultural)
 
  Dalvinha é uma menina de 14 anos que mora com a mãe
e o padrasto. Durante o dia, dentro de casa, ela é tratada como uma empregada doméstica e à noite estuda em um colégio. Através de Doca, um rapaz que encontra na rua, Dalvinha toma conhecimento do cabaré tropical- um espaço onde circulam gringos europeus, que pagam um alto preço em dólar para passar uma noite com jovens garotas. Para fugir de conflitos familiares, ela acaba aceitando os conselhos de Doca para que abandone os estudos e vá ganhar um dinheirinho extra no cabaré, em busca de um meio de vida “mais humano”.


 

Este é o tema central do curta Catálogo de Meninas - a denúncia social de problemas que, aliados à violência e abuso sexual domésticos, segundo o seu autor, compõem um universo de marginalidade e crime, que pretende trazer à tona e provocar debate. Um dos vencedores do edital Prêmio Carlos Vasconcellos 2001, o curta-metragem do diretor, cartunista e músico Caó Cruz Alves, será exibido logo mais às 15 horas e ainda na segunda às 21 horas e quarta-feira, às 19, na Sala Walter da Silveira (Biblioteca Central), dentro do I Panorama Brasil Coisa de Cinema. Este “Catálogo” de Caó é uma denúncia contra o turismo sexual e pontua sua estréia em animação, no formato película 35 mm.

Ele não pretende ser precursor de animação na temática do turismo sexual e pedofilia tão presentes na mídia dos nossos dias. A sincronicidade é só a ponta do iceberg, ou seja, da antena do artista que respira o seu tempo. A inspiração de Caó Cruz Alves acabou lhe valendo o Prêmio Carlos Vasconcellos 2001 com o curta-metragem Catálogo de Meninas, um dos escolhidos pela Secretaria de Cultura e Turismo, do Governo do Estado da Bahia.

Com a sutileza e acuidade de um equilibrista, Caó denuncia os absurdos que norteiam a exploração sexual de meninas, especialmente engendrada por europeus, sem cair na discriminação pejorativa e generalizante, em relação a um tema grave, complexo e emergente, embora tratado na linguagem lúdica da animação cinematográfica. Com 13 minutos de película, o Catálogo acessa o humor do cartunista via símbolo do vampirismo, atestando como de fato são “sugadas” as meninas que correm atrás do “príncipe encantado” alto, louro e de olho azul. O processo de criação de Caó pega carona uma autêntica provocação temática, de Maria
José Bacelar Guimarães, do Centro Humanitário de Apoio à Mulher (Chame), o livro intitulado Empresário procura mulher jovem, morena, bonita, liberal- Explorando os anúncios estrangeiros, lançado no último dia 12.

A partir de uma realização anterior “Dançando na Europa”, que o Chame lhe solicitou, como material lúdico/ educativo destinado a escolas da rede pública, o artista produziu uma recriação, que resultou no enriquecimento de seu Catálogo, no que toca a conteúdo e forma, de que são exemplos os recursos de cenário em três dimensões. “Foi muito bom associar o 2D ao 3D, conseguindo um efeito de contraste. Também foi útil para me mostrar que não existem parâmetros rigorosos na arte. Nem sempre o 3D resulta em algo pasteurizado e assim eu pude relativizar a resistência que eu alimentava com esse recurso de animação” afirma Caó.

Durante os oito meses o período de elaboração da obra, tempo que se deveu à falta de tradição na Bahia na área de animação, Caó acabou por imprimir novos valores ao processo criativo, graças (reconhece) ao trabalho de Laís Esteves, que estava retornando do 10º Anima Mundi, festival internacional de animação que aconteceu no Rio de Janeiro, e atuou como clean-up (limpeza do desenho). O mutirão contou ainda com o empenho dos atores baianos, como Paloma Rodrigues, (na pele da adolescente Dalvinha), Nilda Spencer, Gideon Rosa, Waldemar Nobre (o alemão) e Jorge Washington, que deram voz aos personagens.

Comentando o Prêmio Carlos Vasconcellos 2001, que lhe foi, Caó considera-o uma saudável motivação à sua auto-estima e alimento para nutrir seu desejo de incursionar na longa-metragem, mas aproveita para sugerir à Secretaria de Cultura e Turismo não só a continuidade do prêmio como, paralelamente, a promoção de cursos no âmbito de roteiro, story board, de fotografia e câmera, o que certamente atenderá às expectativas de uma geração ávida por desenvolver a sétima arte, “mas que se ressente de instrumentação teórica indispensável para atender às exigências da linguagem do cinema”.

O diretor


Com uma obra de cartuns que circula entre públicos compostos de baianos, franceses e até japoneses desde os anos 70, com a marca própria de humor e lirismo poético no desenho, o soteropolitano Caó Cruz Alves dispensa apresentações, tanto por sua bagagem no país e no exterior, inclusive como cartunista de um conceituado periódico em Paris, quanto por suas participações em mostras e festivais. Catálogo de Meninas teve ainda menção honrosa no 25º Festival Guarnicê de Cinema do Maranhão (2002). Mas não é seu único mérito, já que em 1997 foi vencedor do prêmio de júri popular do Festival da Imagem em Movimento com o vídeo Coisinha, repicando ano seguinte com o primeiro lugar no V Festival da Imagem em Cinco Minutos, com a obra Ouviram Alonzanfan.Em 2000 recebeu o premio de melhor animação como vídeo “O Sapo”, no II Festival Internacional de Humor, em Recife.


Ângela Peroba é jornalista, free-lancer.

 

 




 
 
 
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