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Este é o tema central do curta Catálogo de
Meninas - a denúncia social de problemas que, aliados
à violência e abuso sexual domésticos,
segundo o seu autor, compõem um universo de marginalidade
e crime, que pretende trazer à tona e provocar debate.
Um dos vencedores do edital Prêmio Carlos Vasconcellos
2001, o curta-metragem do diretor, cartunista e músico
Caó Cruz Alves, será exibido logo mais às
15 horas e ainda na segunda às 21 horas e quarta-feira,
às 19, na Sala Walter da Silveira (Biblioteca Central),
dentro do I Panorama Brasil Coisa de Cinema. Este “Catálogo”
de Caó é uma denúncia contra o turismo
sexual e pontua sua estréia em animação,
no formato película 35 mm.
Ele não pretende ser precursor de animação
na temática do turismo sexual e pedofilia tão
presentes na mídia dos nossos dias. A sincronicidade
é só a ponta do iceberg, ou seja, da antena
do artista que respira o seu tempo. A inspiração
de Caó Cruz Alves acabou lhe valendo o Prêmio
Carlos Vasconcellos 2001 com o curta-metragem Catálogo
de Meninas, um dos escolhidos pela Secretaria de Cultura
e Turismo, do Governo do Estado da Bahia.
Com a sutileza e acuidade de um equilibrista, Caó
denuncia os absurdos que norteiam a exploração
sexual de meninas, especialmente engendrada por europeus,
sem cair na discriminação pejorativa e generalizante,
em relação a um tema grave, complexo e emergente,
embora tratado na linguagem lúdica da animação
cinematográfica. Com 13 minutos de película,
o Catálogo acessa o humor do cartunista via símbolo
do vampirismo, atestando como de fato são “sugadas”
as meninas que correm atrás do “príncipe
encantado” alto, louro e de olho azul. O processo
de criação de Caó pega carona uma autêntica
provocação temática, de Maria
José Bacelar Guimarães, do Centro Humanitário
de Apoio à Mulher (Chame), o livro intitulado Empresário
procura mulher jovem, morena, bonita, liberal- Explorando
os anúncios estrangeiros, lançado no último
dia 12.
A partir de uma realização anterior “Dançando
na Europa”, que o Chame lhe solicitou, como material
lúdico/ educativo destinado a escolas da rede pública,
o artista produziu uma recriação, que resultou
no enriquecimento de seu Catálogo, no que toca a
conteúdo e forma, de que são exemplos os recursos
de cenário em três dimensões. “Foi
muito bom associar o 2D ao 3D, conseguindo um efeito de
contraste. Também foi útil para me mostrar
que não existem parâmetros rigorosos na arte.
Nem sempre o 3D resulta em algo pasteurizado e assim eu
pude relativizar a resistência que eu alimentava com
esse recurso de animação” afirma Caó.
Durante os oito meses o período de elaboração
da obra, tempo que se deveu à falta de tradição
na Bahia na área de animação, Caó
acabou por imprimir novos valores ao processo criativo,
graças (reconhece) ao trabalho de Laís Esteves,
que estava retornando do 10º Anima Mundi, festival
internacional de animação que aconteceu no
Rio de Janeiro, e atuou como clean-up (limpeza do desenho).
O mutirão contou ainda com o empenho dos atores baianos,
como Paloma Rodrigues, (na pele da adolescente Dalvinha),
Nilda Spencer, Gideon Rosa, Waldemar Nobre (o alemão)
e Jorge Washington, que deram voz aos personagens.
Comentando o Prêmio Carlos Vasconcellos 2001, que
lhe foi, Caó considera-o uma saudável motivação
à sua auto-estima e alimento para nutrir seu desejo
de incursionar na longa-metragem, mas aproveita para sugerir
à Secretaria de Cultura e Turismo não só
a continuidade do prêmio como, paralelamente, a promoção
de cursos no âmbito de roteiro, story board, de fotografia
e câmera, o que certamente atenderá às
expectativas de uma geração ávida por
desenvolver a sétima arte, “mas que se ressente
de instrumentação teórica indispensável
para atender às exigências da linguagem do
cinema”.
O diretor
Com uma obra de cartuns que circula entre públicos
compostos de baianos, franceses e até japoneses desde
os anos 70, com a marca própria de humor e lirismo
poético no desenho, o soteropolitano Caó Cruz
Alves dispensa apresentações, tanto por sua
bagagem no país e no exterior, inclusive como cartunista
de um conceituado periódico em Paris, quanto por
suas participações em mostras e festivais.
Catálogo de Meninas teve ainda menção
honrosa no 25º Festival Guarnicê de Cinema do
Maranhão (2002). Mas não é seu único
mérito, já que em 1997 foi vencedor do prêmio
de júri popular do Festival da Imagem em Movimento
com o vídeo Coisinha, repicando ano seguinte com
o primeiro lugar no V Festival da Imagem em Cinco Minutos,
com a obra Ouviram Alonzanfan.Em 2000 recebeu o premio de
melhor animação como vídeo “O
Sapo”, no II Festival Internacional de Humor, em Recife.
Ângela Peroba é jornalista, free-lancer.
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